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  • Bru Fioreti

Bagagem cultural, a única que não pesa

A praga de tanto incentivar as pessoas a entrar na onda do autoconhecimento é que ele te ronda, mesmo quando você já começou a ter ânsia só de ouvir uma frase motivacional e variações de “Se não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho te levará lá”… 


Numa das pausas que faço para revisitar meus próprios propósitos, eu me peguei pensando em qual seria minha maior defesa hoje, a macro. Algo além da confiança para as mulheres e que passassem a ser mais focadas no seu significado como ser humano e nos seus cérebros do que no tamanho da sua cintura. 


Cheguei a algo íntimo e antigo que sempre permeou das minhas escolhas às irritações: a defesa da bagagem cultural como uma espécie de salvação intelectual fomentadora da felicidade e da confiança. 


Não que todo mundo precise ter isso. 


Gente que nunca leu pode ser feliz, claro que pode.


Ignorância é uma bênção: há ainda quem diga e confesso que flerto com a ideia quando por segundos quando vejo alguns pseudodebates em redes sociais... 


Há mil formas de saber, fato também.    


Quem falou que felicidade depende de livro, afinal? Outra visão válida.


Mas, veja. 


Não existe des-ver. Uma vez lido o primeiro livro, ah, não tem jeito. A pessoa entra involuntariamente numa jornada de aculturação que, se bem conduzida e misturada a um caldeirão de filmes, escritas, experiências, relações, viagens, reflexões, botecagens, artes e afins pode mudar e muda a vida. 


E aumenta a confiança em si mesmo. 


O que gosto mais: a bagagem cultural conecta cérebro e coração; desce (nem sempre) macio e reanima. 


Deixa o corpo no patamar que ele devia, fundamental, mas não balizador de autoestima. 


Daí que acredito, vejo, incentivo e vivo o processo de aquisição de bagagem cultural, ou de repertório, como incremento de autoconfiança e felicidade especialmente importante para mulheres, ou qualquer pessoa que precise se fortalecer e combater pré-conceitos.


Fortalecer-se intelectualmente importa, gente. 


Não acho que está necessariamente em falta, só vejo que o que isso significa às vezes se perde no meio de fórmulas e indicações de livros úteis do momento. 


O algoritmo cultural não perdoa, embota. 


Bagagem cultural requer tempo, requer aquele mastigar lento e constante. 


Veio agora à minha mente a imagem do meu avô de cócoras montando calmamente seu cigarro de palha e cuspindo seus pedacinhos. Lento e constante. Veio a ideia da pesca paciente que o meu pai gosta de fazer às vezes. No silêncio e no escuro, imóvel porém ativa. 


Pescar conhecimento é processo. Ativo. E é bão demais.  


Ler me faz feliz, mais do que a maioria das coisas. Enriquece minhas ideias porque me faz imaginar, não me oferece nada 100% pronto. Me provoca tremores estéticos mais do que qualquer forma de arte — falo daquele arrepio ou tremelique quando algo te toca profundamente, mexe com você, emociona, sabe? 


Ensinar me faz feliz, escrever, pesquisar mais, repensar, mudar de ideia, (re)descobrir, saber a razão de mudar de ideia… Coisa linda e infinita é ter como objetivo aumentar a bagagem cultural. 


Recomendo fortemente. 


Pode ser em doses cavalares ou homeopáticas.


Mas se eu fosse a “doutora” a medicar as pessoas doentes de leitura e repertório, eu faria receitas do tipo “meia dose de literatura machadiana por dia + 1 dose de escutar as histórias de família, causos ancestrais ou de tradição oral + 2 pílulas de curta-metragens cult desconhecidos + 3 conversas sobre fatos (e não pessoas) por semana + 1 escalda-pés semanal ao queimar a moringa só com temas desimportantes + 5 gotas de stakear o colega no Instagram que você também é filho de Deus”. 


E as receitas se seguiriam, com retornos de pacientes que, ao cabo de algumas semanas, começam a esboçar alguns textos, dar opiniões melhores, ser mais empáticos e confiar em si mesmos, já que se sentiriam mais inteligentes e imaginativos. Não inteligentes, arrogantes. Mas isso: inteligentes, imaginativos. Pensadores. 


Custo do tratamento: zero. 


E eu nessa função de médica especialista em repertório sem fronteiras, sem vergonha e sem juízo (de valor) ajudaria a amenizar doenças de confiança e estima. Todos os conhecedores do tratamento seriam mais felizes e poderiam passar suas receitas, sem contraindicação, adiante. 


Ao receber, enfim, num grupo de Whats qualquer receita minha de bagagem cultural, eu sorriria com um sorriso sábio e tranquilo, sabendo que o bom repertório, enfim, haveria de viralizar mais que fake news.


E ia desligar o celular, escutar Caetano e ler qualquer coisa. Pra variar.  

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